Como contratar o primeiro funcionário, passo a passo

A primeira contratação de uma empresa quase nunca falha por falta de candidato. Ela falha porque o dono do negócio nunca fez isso antes e está decidindo tudo ao mesmo tempo: o que a pessoa vai fazer, quanto pagar, onde anunciar, o que perguntar, como comparar duas pessoas parecidas e como fechar sem se enrolar. Cada uma dessas decisões é simples sozinha, e o que confunde é a pilha delas caindo junta, no meio de uma semana que já estava cheia. Este artigo separa a pilha em passos, na ordem em que eles precisam acontecer. Não é um manual de RH: é o roteiro de quem contrata uma ou duas vezes por ano e quer terminar com a pessoa certa dentro do negócio, sem transformar a contratação num segundo emprego.

1) Antes de anunciar, decida quem você precisa

  • Escreva primeiro o problema, não o cargo. 'O caixa fecha errado duas vezes por semana e eu perco a manhã de sábado conferindo' diz mais sobre a vaga do que o título 'auxiliar administrativo'.
  • Liste de três a sete tarefas do dia a dia, do jeito que elas acontecem na sua rotina. É essa lista que vai virar o anúncio, as perguntas da entrevista e o critério de comparação no fim.
  • Separe o que a pessoa precisa saber fazer já do que ela pode aprender aí dentro. Misturar os dois é o erro mais caro do começo: ele afasta candidato bom que se acha despreparado e atrai gente que marcou todas as caixas sem saber nenhuma.
  • Para cada item obrigatório, escreva como você reconhece aquilo numa conversa ou num currículo. Se não der para descrever o sinal, o requisito não é avaliável e vira só uma palavra bonita no anúncio.
  • Diga o que a pessoa vai fazer na primeira semana. Isso obriga a vaga a ser concreta e serve de roteiro de integração depois, quando a correria da contratação já passou.
  • Se você não sabe por onde começar essa parte, é exatamente ela que a jornada guiada monta com você: responder algumas perguntas sobre a rotina do negócio e receber o perfil escrito é o primeiro passo de [contratar com o Ijobee](/contratar).

2) Quanto pagar, e como chegar nesse número

  • Olhe o que o mercado paga pelo cargo antes de decidir por conta. As faixas por cargo do próprio site são um ponto de partida público: veja [as faixas salariais no Ijobee](/salarios) e compare com a sua região.
  • Some ao salário o custo dos encargos, dos benefícios e do equipamento antes de dizer sim para um número. O valor que sai da sua conta é sempre maior que o que aparece no anúncio.
  • Anunciar a faixa aumenta a chance de a candidatura ser aderente e reduz a conversa desperdiçada. Quem não pode publicar o número ao menos precisa tê-lo decidido antes da primeira entrevista.
  • Decida também o piso e o teto. Sem teto definido, a negociação do fim do processo vira improviso, e improviso com pressa costuma custar caro.
  • Regime de contratação (CLT, PJ, estágio, jovem aprendiz) muda a conta inteira, e a escolha tem consequências legais e tributárias. O [comparativo entre CLT, PJ e freelancer](/blog/contratar-clt-pj-ou-freelancer-como-decidir) ajuda a entender as diferenças, mas a decisão final precisa passar pelo seu contador.

3) O anúncio: o que precisa estar escrito

  • Comece pelo que a pessoa vai fazer, não pela apresentação da empresa. Candidato decide em segundos se aquilo é para ele, e ele decide pela primeira linha.
  • Deixe explícito o essencial de decisão: cidade e se é presencial, híbrido ou remoto, jornada, regime e faixa. Anúncio que esconde isso recebe candidatura de gente que vai desistir na primeira conversa.
  • Diga quantas etapas o processo tem e em quanto tempo você responde. Custa uma linha e é o que mais reduz a desistência silenciosa no meio do caminho.
  • Evite a lista inflada de requisitos. Cada exigência a mais que não é de verdade obrigatória tira do funil gente que daria conta e que se autoexclui por insegurança.
  • Se precisar de um modelo pronto para adaptar, o guia de [descrição de vaga com modelo](/blog/como-escrever-descricao-de-vaga-com-modelo) tem a estrutura que costuma converter melhor.

4) Um lugar só para receber, desde a primeira candidatura

  • Currículo que chega por e-mail, WhatsApp e indicação vira três pilhas que ninguém consegue somar. No fim do processo, ninguém sabe dizer quantas pessoas se candidataram nem quem já foi avaliado.
  • Junte tudo dentro da vaga desde o primeiro dia, inclusive quem chegou por fora: candidato de indicação entra na mesma lista, e passa a ser comparado pelos mesmos critérios.
  • Registre a etapa de cada pessoa. Não é burocracia: é o que impede o bom candidato de sumir porque ninguém lembrou de responder.
  • Combine quem da sua equipe olha o quê. Duas pessoas lendo a mesma pilha sem combinar leem os mesmos currículos duas vezes e nenhum dos outros.
  • Responda quem não avança, mesmo com uma mensagem curta. Quem recebe retorno costuma se candidatar de novo na próxima vaga, e é assim que a segunda contratação começa mais fácil que a primeira.

5) Triagem: reduzir a pilha sem ler tudo duas vezes

  • Defina o corte antes de abrir o primeiro currículo. Critério escrito depois de conhecer os candidatos deixa de ser critério e vira justificativa.
  • Use os itens obrigatórios do perfil como filtro, nessa ordem, e pare de ler quando faltar um. Ler o currículo inteiro de quem já foi eliminado no segundo item é o desperdício mais comum da triagem manual.
  • Uma leitura por inteligência artificial ajuda a ordenar a pilha por aderência e a separar pontos fortes de lacunas para checar depois. Ela não reprova ninguém e não deveria: serve para dizer por onde começar, não para decidir.
  • Desconfie de currículo que repete o anúncio palavra por palavra e não traz nenhuma evidência. Peça um exemplo concreto na conversa em vez de descartar por suspeita.
  • Guarde quem ficou perto mas não avançou. Na próxima vaga parecida, essa lista curta vale mais que um anúncio novo.
  • Se a triagem de 200 currículos é o seu problema, o passo a passo detalhado dela está em [triagem de currículos, de 200 para 10 entrevistas](/blog/triagem-de-curriculos-de-200-para-10-entrevistas).

6) As etapas do processo: escolha o que a vaga pede

  • Toda etapa a mais custa candidato. Processo longo perde exatamente quem tem outras opções, que costuma ser quem você queria contratar.
  • Escolha as etapas pelo que elas respondem. Teste técnico responde 'sabe fazer'; conversa ao vivo responde 'dá para trabalhar junto'; vídeo gravado responde 'se expressa bem' sem gastar a agenda de ninguém.
  • Para a maioria das vagas de pequena empresa, duas etapas depois da triagem bastam, e a terceira só entra quando a decisão continua empatada.
  • Combine a duração de cada etapa antes de convidar. Teste que consome um fim de semana inteiro de trabalho não remunerado afasta profissional experiente.
  • O artigo sobre [que etapa usar para cada vaga](/blog/teste-video-ou-entrevista-que-etapa-usar-em-cada-vaga) compara as três e mostra combinações prontas por tipo de vaga.

7) A entrevista: as mesmas perguntas para todo mundo

  • Escreva as perguntas antes da primeira conversa e faça as mesmas para todos os finalistas. Sem isso, você compara impressões, não respostas, e impressão favorece quem se parece com você.
  • Para cada requisito obrigatório, peça um exemplo do passado: o que aconteceu, o que a pessoa fez e como terminou. Pergunta hipotética mede imaginação, não experiência.
  • Anote logo depois de cada conversa, com a resposta e não com o adjetivo. 'Explicou o fechamento de caixa e citou a conferência de sangria' vale mais que 'gostei dele'.
  • Existem perguntas que a lei não permite fazer, e várias delas são comuns por hábito. Antes de entrevistar, leia [as perguntas que você não pode fazer numa entrevista](/blog/perguntas-que-nao-se-pode-fazer-numa-entrevista): a lista é curta e cada item tem uma substituta melhor.
  • Reserve o fim da conversa para o candidato perguntar. O que ele pergunta costuma dizer mais sobre preparo do que qualquer resposta que ele deu antes.

8) Comparar os finalistas e decidir

  • Ponha os finalistas lado a lado no mesmo quadro, com os mesmos critérios do perfil. Comparar dois candidatos de memória, com dias de diferença entre as conversas, é comparar quem você lembra melhor.
  • Dê peso aos critérios antes de olhar os nomes. Sem peso definido, o item que mais pesa acaba sendo o último que você leu.
  • Registre o motivo da escolha em duas linhas. Além de disciplinar a decisão, é o que permite entender depois o que deu certo, quando a pessoa estiver seis meses na casa.
  • Empate técnico não se resolve com mais uma entrevista. Resolve-se voltando ao perfil e perguntando qual das duas pessoas faz melhor o que a vaga mais precisa nos primeiros três meses.
  • Consulte quem vai trabalhar junto, mas deixe claro quem decide. Decisão por consenso de todo mundo costuma terminar na escolha mais inofensiva, não na melhor.

9) Fechar bem: proposta, admissão e o que fica para a próxima

  • Faça a proposta por escrito, com cargo, valor, regime, data de início e o que mais foi combinado. Proposta por mensagem solta é a origem da maior parte dos desentendimentos de primeira semana.
  • Combine o prazo de resposta e cumpra o seu lado. Enquanto a pessoa decide, ela continua conversando com outras empresas.
  • Prepare a admissão antes do primeiro dia: documentos, exame admissional, equipamento, acesso, e quem recebe a pessoa. Primeira semana desorganizada desfaz em dias a boa impressão que o processo inteiro construiu.
  • A papelada de admissão e o enquadramento correto do contrato são assunto de contador e, quando houver dúvida, de advogado. Este artigo ajuda a conduzir a escolha da pessoa, não a formalização do vínculo.
  • Responda quem não ficou antes de encerrar a vaga, e guarde os finalistas. Da próxima vez, esse é o seu ponto de partida.

Contratar a primeira pessoa não exige um departamento de recursos humanos, exige ordem. O perfil escrito antes do anúncio evita a pilha errada; o critério definido antes da triagem evita a decisão por impressão; as mesmas perguntas para todos os finalistas transformam conversa em comparação; e a proposta por escrito evita o mal-entendido que estraga a primeira semana. Nada disso é caro e nada disso é demorado quando acontece na ordem certa. O que custa caro é o contrário: anunciar antes de saber quem se precisa, ler duzentos currículos sem critério, entrevistar no improviso e descobrir no terceiro mês que faltava justamente o essencial.