Quanto custa contratar um funcionário CLT em 2026?
Não existe um multiplicador único que transforme salário em custo de contratação. Duas empresas que oferecem o mesmo salário podem ter despesas diferentes por causa do regime tributário, do RAT e do FAP, da convenção coletiva, dos benefícios e das verbas variáveis. Há ainda uma confusão frequente: para medir o desembolso anual de um mensalista, o salário recebido durante as férias já está dentro dos 12 salários do ano; somar outro salário inteiro como “provisão de férias” conta a mesma remuneração duas vezes. O valor adicional é o terço constitucional, embora férias também reduzam as horas produtivas do ano. Este guia separa custo financeiro, custo por hora produtiva e risco de desligamento, com um exemplo de R$ 3.000 e fontes oficiais consultadas em 2026. A simulação serve para orçamento; a folha definitiva precisa respeitar o enquadramento e as rubricas da empresa.
1) Comece pelo objetivo da conta
- Para orçamento de caixa, some tudo o que a empresa deve pagar ao longo de 12 meses e divida por 12. O resultado é um custo médio mensal, não o valor exato de cada folha.
- Para precificar um serviço, divida o custo anual pelas horas realmente produtivas. Nesse cálculo, férias, feriados, treinamento e ociosidade reduzem o divisor mesmo quando não criam uma segunda remuneração mensal.
- Para decidir uma contratação, acrescente custos que não estão na folha: recrutamento, exame ocupacional, equipamento, licenças, gestão, espaço e curva de aprendizagem.
- Para medir risco de desligamento, simule aviso-prévio, multa do FGTS, verbas proporcionais e reposição da vaga separadamente. Misturar tudo em um percentual genérico esconde as premissas.
- Monte pelo menos três cenários (esperado, conservador e de desligamento) e registre salário, regime, alíquotas, benefícios e data das tabelas usadas.
2) Remuneração anual sem contar férias duas vezes
- Um mensalista que permanece empregado o ano inteiro recebe 12 salários. O salário do mês de férias faz parte desses 12 pagamentos: ele não é um 13º salário disfarçado.
- O 13º é adicional. A [Lei nº 4.090/1962](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4090.htm) determina 1/12 da remuneração por mês de serviço; em um ano completo, a referência simples é mais um salário.
- Nas férias, o adicional é de pelo menos um terço do salário, previsto no artigo 7º da [Constituição Federal](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm). Para um salário fixo de R$ 3.000, são R$ 1.000 adicionais no ano.
- Sem horas extras, comissões ou adicionais, a remuneração anual simplificada é: 12 salários + 1 salário de 13º + 1/3 de salário de férias. Para R$ 3.000, isso resulta em R$ 40.000.
- Variáveis habituais podem alterar 13º, férias e encargos. A folha deve considerar médias e regras da categoria; o exemplo deste guia usa salário fixo apenas para tornar o método verificável.
3) FGTS e bases de incidência
- O depósito mensal do FGTS para um trabalhador geral é de 8% sobre as verbas que integram sua base. O regime tributário da empresa não elimina essa obrigação.
- O [FGTS Digital](https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/servicos/empregador/fgtsdigital/perguntas-frequentes) confirma a incidência sobre o 13º e orienta que remuneração e adicional de um terço das férias gozadas sejam declarados nas competências correspondentes.
- No exemplo simplificado, a base anual de R$ 40.000 gera R$ 3.200 de FGTS. O custo anual conhecido até aqui é R$ 43.200, ou média de R$ 3.600 por mês.
- Não aplique 8% apenas aos 12 salários: 13º e terço de férias também entram no planejamento. Tampouco some o adiantamento de férias como novo custo; o eSocial compensa o adiantamento na competência do gozo.
- Adicionais, afastamentos, verbas indenizatórias e rescisórias têm incidências próprias. Para a folha real, use a parametrização de rubricas do eSocial e não uma planilha que aplica a mesma alíquota a qualquer pagamento.
4) O regime tributário muda a contribuição patronal
- No Simples Nacional, a CPP costuma estar incluída no DAS para atividades dos Anexos I, II, III e V. Isso não significa “folha sem encargos”: FGTS, direitos trabalhistas, benefícios e obrigações da categoria continuam.
- No Anexo IV, a CPP não está incluída no DAS. A [Receita Federal](https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/orientacao-tributaria/cobrancas-e-intimacoes/contribuicao-previdenciaria-anexo-iv-do-simples-nacional) apresenta cálculo com 20% de contribuição patronal mais RAT para empregados e informa zero em outras entidades e fundos no exemplo oficial.
- No Lucro Presumido ou Real, o orçamento pode incluir CPP de 20%, RAT ajustado pelo FAP e contribuições a terceiros conforme FPAS. A combinação concreta depende da atividade e da situação da empresa.
- O RAT básico é de 1%, 2% ou 3% conforme o risco da atividade preponderante. A [Receita Federal](https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/orientacao-tributaria/declaracoes-e-demonstrativos/gfip-sefip-guia-do-fgts-e-informacoes-a-previdencia-social-1/fap-fator-acidentario-de-prevencao-legislacao-perguntas-frequentes-dados-da-empresa) orienta que essa alíquota seja ajustada pelo FAP da empresa.
- Contribuições a terceiros não devem ser presumidas em 5,8% para qualquer CNPJ. Entidades, fundos, código FPAS e incidência da rubrica precisam ser confirmados com a contabilidade.
5) Exemplo de orçamento para um salário de R$ 3.000
- Base comum: R$ 36.000 em 12 salários + R$ 3.000 de 13º + R$ 1.000 de adicional de férias = R$ 40.000 de remuneração anual simplificada.
- FGTS de 8% sobre essa base: R$ 3.200. Em uma empresa do Simples fora do Anexo IV, o subtotal ilustrativo é R$ 43.200 ao ano, média de R$ 3.600 por mês, antes de benefícios e outros custos.
- No Anexo IV, usando apenas para orçamento CPP de 20%, RAT de 2% e FAP igual a 1, somam-se R$ 8.800 à base. Com o FGTS, o subtotal chega a R$ 52.000 por ano, média de R$ 4.333,33 por mês.
- Em um exemplo de Lucro Presumido ou Real com CPP de 20%, RAT ajustado de 2% e terceiros de 5,8%, os encargos patronais somariam R$ 11.120. Com o FGTS, o subtotal seria R$ 54.320 ao ano, média de R$ 4.526,67 por mês.
- Os três resultados não são tabelas oficiais nem preços universais. Eles demonstram como as premissas mudam a conta; benefícios, variáveis, convenção, FAP, FPAS e incidências reais devem substituir os números ilustrativos.
6) Benefícios e custos operacionais
- Leia a convenção ou o acordo coletivo antes de montar o orçamento. Piso, reajuste, vale-alimentação, seguro, assistência médica, adicional e contribuições podem variar por categoria e localidade.
- Registre o custo líquido do vale-transporte, alimentação, plano de saúde, seguro e outros benefícios depois da participação do empregado. A natureza e a forma de concessão influenciam a incidência de encargos; não classifique tudo automaticamente como verba sem reflexo.
- Inclua exame admissional e periódico, saúde e segurança do trabalho, uniforme, equipamento, computador, celular, licenças de software e eventuais adequações do posto.
- Some recrutamento, integração e horas do gestor. Esses custos não aparecem na folha, mas são desembolsos necessários para transformar uma contratação aprovada em capacidade produtiva.
- Para equipes presenciais, acrescente espaço, mobiliário, energia e infraestrutura. Para trabalho remoto, considere equipamentos, suporte, segurança da informação e ajuda de custo prevista na política ou no acordo.
7) Desligamento é um cenário, não um percentual mágico
- Na dispensa sem justa causa podem entrar aviso-prévio, multa de 40% sobre os depósitos do FGTS e verbas vencidas ou proporcionais, conforme o caso. A [Lei nº 8.036/1990](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8036consol.htm) disciplina os depósitos e a indenização do FGTS.
- 13º e férias proporcionais não devem ser somados duas vezes ao custo anual: se a empresa já os acumulou mensalmente, a rescisão antecipa o desembolso do saldo provisionado.
- Crie uma simulação por tempo de casa e tipo de desligamento. Um percentual fixo sobre toda a folha pode servir como reserva interna, mas não representa a obrigação de cada contrato.
- Acrescente reposição da vaga, período sem produtividade, seleção e treinamento. Dependendo da função, o custo indireto pode pesar mais que as verbas rescisórias.
- Acompanhe rotatividade por área e compare reserva com gasto real. Depois de alguns ciclos, a própria empresa terá uma premissa mais útil do que qualquer média genérica de mercado.
8) Checklist para fechar o orçamento
- Confirme salário, adicionais, médias variáveis, data de admissão e meses trabalhados no ano.
- Separe 12 salários, 13º e adicional de um terço das férias; não acrescente uma segunda remuneração integral de férias ao desembolso anual do mensalista.
- Aplique FGTS e encargos apenas às bases correspondentes e use o enquadramento real: Simples e anexo, Lucro Presumido ou Real, CPP, RAT, FAP, FPAS e terceiros.
- Inclua convenção coletiva, benefícios líquidos, saúde ocupacional, equipamentos, sistemas, recrutamento e gestão.
- Divida o total anual por 12 para enxergar o caixa médio e pelas horas produtivas anuais para precificar trabalho. São indicadores diferentes e os dois podem ser necessários.
- Simule desligamento separadamente e peça à contabilidade a memória das incidências antes de aprovar a vaga. Depois, a página [para empresas](/para/empresas) ajuda a estruturar e divulgar a oportunidade.
O custo de um funcionário não cabe em “salário vezes dois” nem em qualquer outro multiplicador universal. No exemplo simplificado de R$ 3.000, salário, 13º, terço de férias e FGTS somam R$ 43.200 por ano antes de benefícios; CPP, RAT, FAP e terceiros podem elevar o valor conforme o enquadramento. A melhoria central é metodológica: medir o ano inteiro, não contar férias duas vezes, separar caixa de produtividade e deixar cada premissa visível. Use a simulação para decidir se a vaga cabe no orçamento e confirme incidências, convenção e regime com a contabilidade antes de transformar a estimativa em folha.